quinta-feira, 19 de julho de 2007
Ensaios Fotográficos
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotogafei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
"Manoel de Barros"
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Aí um dia me pediram pra falar sobre loucura
Aí um dia me pediram pra falar sobre loucura. Pensei que seria fácil. A loucura é intrínseca a todos os aspectos da minha vida. E sentei pra escrever. Descobri que é fácil falar sobre tratamento, sobre clínica da loucura, diagnósticos (arghhh!), sintomas. Mas falar sobre o fenômeno......sei lá. Loucura talvez seja viver sem burocracias ou meias palavras. Só sei que seres normais me cansam, me entediam. Os loucos são encantadores. Ser louco é poder falar grandes merdas e quem sabe pedir desculpas, dizer que ama e fo-da-se, que odeia e fo-da-se, sair do ar, viajar na maionese, dar vexame mesmo, ser ridícula, piegas, às vezes romântica, ficar perturbada, ter uma TPM desgraçada se achando no direito de chorar cinco dias se-gui-dos e depois de tudo isso ainda continuar vivendo com o sorriso na cara sem aquela merda de arrependimento.
-Porra, você é louca?
-Sou. Obrigada.
(M Capone - futura integrante do DC, espero!)
terça-feira, 10 de julho de 2007
Ocorreu um erro inesperado no systema
Vou estar encaminhando seu pedido...
Vamos elaborar um relatório...
Vamos estar fazendo um requerimento...
Preencha esta ficha...
Queira estar respondendo a este formulário...
No momento estamos com todos os nossos atendentes ocupados...
Você poderia estar fornecendo seu cpf, rg e seu mau-humor...
Nós vamos estar retornando sua ligação dentro de 3 meses...
Vamos estar fodendo com sua paciência e seu sono dominical...
Vou estar direcionando seu projeto para o lixo...
Ocorreu um erro inesperado do sistema e enviaremos uma lista para o provedor...
Queira aguardar cinco horas para a normalização dos serviços Nerdt...
Vamos estar instalando seu modem assim que um de nossos técnicos estiver disposto...
Vou reiterar com veemência...
Atentai nobres colegas, para o problema da plenária mal dormida ...
Sejamos prolixos como se estívéssemos no senado...
Com a palavra, o irrepreensível presidente...
Nosso excelso colega fará um aparte...
Pela ordem...
Vossa excelência vá tomar no cu...
Vamos tomar uma posyção...
Vamos estar atrasando seu pagamento...
Vamos estar descontando do seu holerite...
Jovem, você que completou 18 anos, favor alistar-se na junta militar mais próxima...
Estamos construindo o futuro do Brasyl...
Phöda-se e sem mais...
desenho solo.glaz / texto m.zilda
quarta-feira, 4 de julho de 2007
terça-feira, 3 de julho de 2007
Mais um dia qualquer na vida de um inútil
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Como um salto para fora dessa realidade falsa, num gole, ou melhor, com vários litros de destilado eu vou a Orion. Com R$ 2,30 eu vou no máximo até a zona leste. Quero uma bomba, de maconha, para acabar com as horas de trabalho. Quero um teco de cacaina para acabar a vergonha e apatía típicas dos contemporâneos. Quero um par de seios para morder até sangrar. Quero matar um policial sem motivo aparente (talvez isso seja impossivel, tá na cara que todo gambé é culpado de algo grave). Quero que você se foda e que a bolsa de valores quebre. Quero que o avião caia, que o carro bomba exploda e que sua mulher o traia. Boa tarde, o que deseja.... tenho que trampar....
EMBRIAGUE-SE
É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se. E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".
Charles Baudelaire
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